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Fazei tudo o que Ele vos mandar (Jo 2,5)

C - A HERMENÊUTICA DA SAGRADA ESCRITURA NA IGREJA

A Igreja, lugar originário da hermenêutica da Bíblia

29. A interpretação da Sagrada Escritura na Igreja, isto é, a ligação entre Palavra e fé esclarece que a autêntica hermenêutica da Bíblia só pode ser feita na fé eclesial”. «O conhecimento de Jesus Cristo pela fé é a fonte da inteligência de toda a Sagrada Escritura. «Eu não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja Católica». Esta afirmação de Santo Agostinho ensina que o lugar originário da interpretação da Escritura é a vida da Igreja. “Por isso, a interpretação da Sagrada Escritura exige a participação dos intérpretes ou exegetas em toda a vida e em toda a fé da Comunidade crente do tempo deles». (2 Pd 1, 20-21). O Espírito Santo, que anima a vida da Igreja, é que a torna capaz de interpretar autenticamente as Escrituras
.
30. São Jerônimo recorda que, sozinhos, nunca poderemos ler a Escritura. Encontramos demasiadas portas fechadas e caímos facilmente em erro. A Bíblia foi escrita pelo Povo de Deus e para o Povo de Deus, sob a inspiração do Espírito Santo. Somente com o «nós», isto é, nesta comunhão com o Povo de Deus, podemos realmente entrar no núcleo da verdade que o próprio Deus nos quer dizer. O Livro da Bíblia é justamente a voz do Povo de Deus peregrino, e só na fé deste Povo é que estamos, por assim dizer, na tonalidade justa para compreender a Sagrada Escritura. Uma autêntica interpretação da Bíblia deve estar sempre em harmônica concordância com a fé da Igreja Católica.
«O justo conhecimento do texto bíblico só é acessível a quem tem uma afinidade vital com aquilo de que fala o texto». Tudo isto põe em relevo a relação entre a vida espiritual e a hermenêutica da Escritura. De fato, «com o crescimento da vida no Espírito, cresce também no leitor a compreensão das realidades de que fala o texto bíblico». Uma intensa e verdadeira experiência eclesial não pode deixar de incrementar a inteligência da fé autêntica a respeito da Palavra de Deus; e, vice-versa, a leitura na fé das Escrituras faz crescer a própria vida eclesial. Assim, a escuta da Palavra de Deus introduz e incrementa a comunhão eclesial com todos os que caminham na fé.

«A alma da sagrada teologia»

31. A Dei Verbum ensina que «O estudo dos livros sagrados deve ser a alma da sagrada teologia». Esta frase tornou-se símbolo do renovado interesse pela Sagrada Escritura após o ConcilioVaticano II e foi citada várias vezes na XII Assembleia do Sínodo dos Bispos para indicar a relação entre investigação histórica e hermenêutica da fé aplicadas ao estudo do texto sagrado. Os Padres sinodais .reconheceram o crescimento do estudo da Palavra de Deus nas últimas décadas e agradeceram à Pontifícia Comissão Bíblica e aos numerosos exegetas e teólogos a contribuição para o aprofundamento do sentido das Escrituras, enfrentando os problemas complexos que o nosso tempo coloca à investigação bíblica. Da relação fecunda entre exegese e teologia depende, em grande parte, a eficácia pastoral da ação da Igreja e da vida espiritual dos fiéis.
Desenvolvimento da investigação bíblica e Magistério eclesial
32. Segundo a visão católica da Sagrada Escritura, a exegese histórico-crítica e os outros métodos de análise do texto estão em consonância com o realismo da encarnação: “O Verbo Feito Carne” (Jo.1, 14). A história da salvação é uma dimensão constitutiva da fé cristã porque não é uma mitologia. Por isso, o estudo da Bíblia exige o conhecimento e o uso apropriado destes métodos de pesquisa histórica. Na sã tradição eclesial sempre houve amor pelo estudo da «letra». Basta recordar aqui a cultura monástica, à qual devemos a cultura européia, pois na sua na sua raiz está o interesse pela palavra. «Visto que, na Palavra bíblica, Deus caminha para nós e nós para Ele, é preciso aprender a penetrar no segredo da língua, compreendê-la na sua estrutura e no seu modo de se exprimir.

O Magistério e a Hermenêutica bíblica

33. João Paulo II recordou a importância das encíclicas Providentissimus Deus do Papa Leão XIII e Divino afflante Spiritu do Papa Pio XII para a exegese e a teologia. A intervenção do Papa Leão XIII teve o mérito de proteger a interpretação católica da Bíblia dos ataques do racionalismo, sem contudo se refugiar num sentido espiritual separado da história. Por sua vez, o Papa Pio XII encontrava-se perante os ataques dos adeptos duma exegese chamada mística, que recusava qualquer abordagem científica. A Encíclica Divino afflante Spiritu evitou que se desenvolvesse a idéia de uma dicotomia entre a «exegese científica» para o uso apologético e a «interpretação espiritual reservada ao uso interno». Estes dois documentos recusam «a ruptura entre o humano e o divino, entre a pesquisa científica e a visão da fé, entre o sentido literal e o sentido espiritual». O objetivo do trabalho dos exegetas só está alcançado quando tiverem esclarecido o significado do texto bíblico como Palavra de Deus hoje-aqui-agora».

A hermenêutica bíblica conciliar: uma indicação a acolher

34. Eis o que ensina a Dei Verbum: «Como Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana, o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras». Para isso, o Concílio sublinha o estudo dos gêneros literários e a contextualização; por outro lado, para interpretar a Escritura segundo o mesmo Espírito em que foi escrita, ele indica três critérios para se respeitar a dimensão divina da Bíblia: 1) ter presente a unidade de toda a Escritura (exegese canônica); 2) ter presente a Tradição viva de toda a Igreja; 3) observar a analogia da fé. Mas, juntamente com a investigação histórico-crítica avançada e positiva, é forçoso exigir um estudo análogo da dimensão teológica dos textos bíblicos, para que progrida o aprofundamento segundo os três elementos indicados pela Dei Verbum.

O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada

35. É preciso sublinhar hoje o grave risco de um dualismo no estudo das Sagradas Escrituras. Os dois níveis da abordagem bíblica são inseparáveis, não são contrapostos e muito menos justapostos. Eles só funcionam em reciprocidade. Infelizmente, não raro uma separação dos mesmos leva a comportamentos estranhos na exegese e na teologia.

a) Antes de mais nada, se a atividade exegética se reduz só ao nível histórico, a própria Escritura torna-se um texto só do passado: «Daí podem-se tirar conseqüências morais, pode-se aprender a história, mas o Livro como tal fala só do passado e a exegese já não é realmente teológica, mas torna-se pura historiografia, história da literatura». Numa tal redução, não é possível compreender o acontecimento da revelação de Deus através da sua Palavra que nos é transmitida na Tradição viva e na Escritura.

b) A falta de uma hermenêutica da fé leva uma outra hermenêutica, uma hermenêutica secularizada, positivista, cuja chave fundamental é a convicção de que o Divino não aparece na história humana. Quando parece que há um elemento divino, isso se deve explicar de outro modo, reduzindo tudo ao elemento humano. Conseqüentemente propõem-se interpretações que negam a historicidade dos elementos divinos.

c) Uma tal posição faz surgir dúvidas sobre mistérios fundamentais do cristianismo e sobre o seu valor histórico (Eucaristia – Ressurreição). E assim impõe-se uma hermenêutica filosófica, que nega a possibilidade de ingresso e presença do Divino na história. A assunção de tal hermenêutica no âmbito dos estudos teológicos introduz um grave dualismo entre a exegese, que se situa só no primeiro nível, e a teologia que leva a uma espiritualização do sentido das Escrituras sem respeito ao caráter histórico da revelação.
«A ausência do nível teológico criou um fosso profundo entre exegese científica e lectio divina. E daqui nasce às vezes uma forma de insegurança na própria preparação das homilias». Tal dualismo produz às vezes incerteza e pouca solidez no caminho de formação intelectual mesmo de alguns candidatos aos ministérios eclesiais. Enfim, «onde a exegese não é teologia, a Escritura não pode ser a alma da teologia e, onde a teologia não é interpretação da Escritura, esta teologia já não tem fundamento».

Fé e razão na abordagem da Escritura

36. João Paulo II na Encíclica Fides et ratio afirmava que não se deve subestimar «o perigo que existe quando se quer identificar a verdade da Sagrada Escritura, esquecendo uma exegese que permita o acesso ao sentido pleno dos textos, em união com a Igreja. Na hermenêutica da Sagrada Escritura está em jogo a relação correta entre fé e razão. A hermenêutica secularizada é atuada por uma razão que quer fechar-se à possibilidade de Deus entrar na vida dos homens e falar aos homens com palavras humanas. Por isso é necessário, convidar a alargar os espaços da própria racionalidade. Na utilização dos métodos de análise histórica, dever-se-á evitar de assumir critérios preconceituosos que se fechem à revelação de Deus na vida dos homens. A unidade dos dois níveis da interpretação da Sagrada Escritura pressupõe uma harmonia entre a fé e a razão. Por um lado, é necessária uma fé com adequada relação com a razão que nunca degenere em fideísmo, promotor de leituras fundamentalistas. Por outro, é necessária uma razão que, investigando os dados históricos presentes na Bíblia, se mostre aberta e não recuse tudo o que excede a própria medida.

Sentido literal e sentido espiritual

37. A Assembléia sinodal apontou para o contributo da escuta dos Padres da Igreja para a adequada hermenêutica da Escritura, porque no centro de sua teologia está o estudo da Sagrada Escritura na sua integridade. O exemplo deles pode «ensinar aos exegetas modernos uma abordagem religiosa da Sagrada Escritura e também uma interpretação em comunhão com a experiência da Igreja. A tradição patrística e medieval sabia reconhecer os vários sentidos da Escritura, a começar pelo literal, isto é, «o expresso pelas letras ou palavras da Escritura». Santo Tomás de Aquino afirma: «Todos os sentidos da Sagrada Escritura se fundamentam no literal». Mas, no período patrístico e medieval, a exegese era feita com base na fé, não havendo necessariamente distinção entre sentido literal e sentido espiritual. O dístico clássico traduz a relação entre os diversos sentidos da Escritura: A letra ensina-te os fatos, a alegoria o que deves crer, A moral o que deves fazer, a anagogia para onde deves tender». Destaca-se aqui a unidade e a articulação entre sentido literal e sentido espiritual, o qual, por sua vez, se subdivide em três sentidos que descrevem os conteúdos da fé, da moral e da tensão escatológica. Somente nesta perspectiva se pode reconhecer que a Palavra de Deus é viva e se dirige a cada um de nós no momento presente da nossa vida.”

A necessária superação da «letra»

38. Para se recuperar a articulação entre os diversos sentidos da Escritura é decisivo identificar a passagem entre letra e espírito: «de fato, a Palavra do próprio Deus nunca se apresenta “ao pé da letra” do texto. Um autêntico processo interpretativo nunca é apenas intelectual, mas também vital enquanto exige o pleno envolvimento na vida eclesial» (Gl 5, 16). Na verdade é uma única Palavra aquela para a qual somos chamados a subir. Este processo tem a ver também com a liberdade de cada um. São Paulo viveu esta passagem. «A letra mata, mas o Espírito vivifica» (2 Cor 3, 6). O Espírito libertador é o Espírito é Cristo, e Cristo é o Senhor que nos indica a estrada».

A unidade intrínseca da Bíblia

39. Com a tradição aprendemos a identificar também a unidade de toda a Escritura divina, que forma um único livro.Este único livro é Cristo, fala de Cristo e encontra em Cristo a sua realização. É certo que a Bíblia não é apenas um livro, mas uma coletânea de textos literários, que foram escritos durante mais de mil anos. Entre os diversos pequenos livros da Bíblia existem tensões. E se isto já se verifica no Antigo Testamento, isto acontece muito mais quando ligamos o Novo Testamento com a Bíblia dos Judeus interpretando-a como caminho para Cristo. No Novo Testamento, aparece mais a expressão «as Escrituras» (cf. Mt 21, 43; Jo 5, 39; Rm 1, 2; 2 Pd 3, 16). Mas, no seu conjunto, as mesma Escrituras são consideradas como a única Palavra de Deus dirigida a nós. Por isso se vê claramente como é a pessoa de Cristo que dá unidade a todas as «Escrituras» postas em relação com a única «Palavra».

A relação entre Antigo e Novo Testamento

40.É evidente que o próprio Novo Testamento reconhece o Antigo Testamento como Palavra de Deus porque reconhece-as claramente, citando muitas partes delas para argumentar. Uma argumentação baseada nos textos do Antigo Testamento tem, no Novo Testamento, um valor decisivo. Jesus declara que «a Escritura não pode ser anulada» (Jo 10, 35) e São Paulo especifica de modo particular que a revelação do Antigo Testamento continua a valer para nós, cristãos (Rm 15, 4; 1 Cor 10, 11). Mas é preciso notar que o cumprimento das Escrituras é complexo, porque comporta uma tríplice dimensão: um aspecto fundamental de continuidade, um aspecto de ruptura e um aspecto de cumprimento e superação com a revelação do Antigo Testamento.
41. Desde seus inícios, a Igreja deixou clara a unidade do plano divino nos dois Testamentos graças à chamada “tipologia”. Ela «descobre nas obras de Deus, na Antiga Aliança, prefigurações ou “tipos” (“tipologia”) do que o mesmo Deus realizou, na plenitude dos tempos, na pessoa do seu Filho encarnado». Por isso os cristãos lêem o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado. Se a leitura tipológica revela o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento na sua relação com o Novo, isto não deve fazer-nos esquecer que o Antigo Testamento mantém o seu próprio valor de Revelação que Nosso Senhor veio reafirmar (Mc 12, 29-31). Por isso «também o Novo Testamento requer ser lido à luz do Antigo. A catequese cristã primitiva recorreu a este método de reler o Novo Testamento à luz do Antigo (cf. 1 Cor 5, 6-8; 10, 1-11)».E assim aquilo que «o Antigo Testamento prometeu, o Novo Testamento o fez ver; o que aquele anuncia de maneira oculta, este proclama abertamente como presente.

As páginas «obscuras» da Bíblia

42. Há páginas da Bíblia que são obscuras e difíceis por causa da violência e imoralidade nelas referidas. Mas é preciso lembrar que a revelação bíblica está profundamente radicada na história. Nela se vai progressivamente manifestando o projeto de Deus, realizando-se lentamente ao longo de etapas sucessivas, não obstante a resistência dos homens. Deus escolhe um povo e, pacientemente, realiza a sua educação. A revelação adapta-se ao nível cultural e moral de épocas antigas, referindo fatos e usos como, por exemplo, manobras fraudulentas, intervenções violentas, extermínio de populações, sem denunciar explicitamente a sua imoralidade. Mas, no Antigo Testamento, os profetas combatem todo o tipo de injustiça e de violência, coletiva ou individual. Eles educam assim o povo de Deus como preparação para o Evangelho.

Cristãos e judeus, relativamente às Sagradas Escrituras

43. Um laço especial existe, então, entre cristãos e judeus. Aos judeus, o Papa João Paulo II declarou: sois «os nossos “irmãos prediletos” na fé de Abraão, nosso patriarca». Por certo, estas afirmações não significam ignorar as rupturas existentes entre os Novo e Antigo Testamentos com ralação às instituições do Antigo Testamento e com o cumprimento das Escrituras em Jesus Cristo, reconhecido enquanto Messias e Filho de Deus. Mas esta diferença profunda e radical não significa hostilidade. Pelo contrário, o exemplo de São Paulo (cf. Rm 9–11) demonstra que «uma atitude de respeito, estima e amor pelo povo judeu é a única atitude cristã nesta situação que faz parte do projeto positivo de Deus». De fato, o Apóstolo afirma que os judeus, «quanto à escolha divina, são amados por causa dos Patriarcas, pois os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis» (Rm 11, 28-29/11, 17-24). Alimentamo-nos, pois, das mesmas raízes espirituais. Encontramo-nos como irmãos que, apesar de momentos históricos tensos, agora estão firmemente comprometidos na construção de pontes de amizade duradoura. Desejo afirmar que o diálogo com os judeus é precioso é para a Igreja.

A interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura

44. Sobre a interpretação fundamentalista da Bíblia, chamo a atenção para aquelas leituras que não respeitam o texto sagrado na sua natureza autêntica, promovendo interpretações subjetivistas e arbitrárias. Na realidade, o «literalismo» ou a interpretação “ao pé da letra” é uma traição tanto do sentido literal quanto do espiritual, abrindo caminho a instrumentalizações e interpretações contrárias à Igreja. O problema da «leitura fundamentalista é recusar o caráter histórico da revelação bíblica, tornando-se incapaz de aceitar a verdade da Encarnação. O fundamentalismo evita a íntima ligação do divino e do humano nas relações com Deus. Por este motivo trata o texto bíblico como um ditado palavra por palavra pelo Espírito. O fundamentalismo não reconhece que a Palavra de Deus foi formulada numa linguagem condicionada por uma dada época». Ao contrário, o cristianismo enxerga nas palavras da Bíblia a Palavra, o próprio Logos, que se manifesta de muitas maneiras no concreto da história humana. A verdadeira resposta a uma leitura fundamentalista é a leitura crente da Sagrada Escritura. Ela procura a verdade salvífica para a vida do indivíduo fiel e para a Igreja. Pelo valor do testemunho histórico ela quer descobrir o significado vivo das Sagradas Escrituras para a vida do fiel de hoje.

Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas

45. A autêntica hermenêutica da fé traz conseqüências no âmbito da atividade pastoral da Igreja. Situar-se no horizonte do trabalho pastoral quer dizer olhar o texto sagrado na sua natureza de comunicação que o Senhor faz aos homens para a salvação. A Dei Verbum afirma que «é preciso que os exegetas católicos e demais estudiosos da sagrada teologia trabalhem em íntima colaboração de esforços, para que, sob a vigilância do sagrado magistério, lançando mão de meios aptos, estudem e expliquem as divinas Letras, de modo que o maior número possível de ministros da Palavra de Deus possa oferecer com fruto ao Povo de Deus o alimento das Escrituras, que ilumine o espírito, robusteça as vontades e inflame os corações dos homens no amor de Deus».

Bíblia e ecumenismo

46.Na própria Escritura, encontramos a comovente súplica de Jesus ao Pai pelos seus discípulos para que sejam um só a fim de que o mundo creia ( Jo 17, 21). Escutar e meditar juntos as Escrituras nos faz viver uma comunhão real, embora ainda não plena, pois «a escuta comum das Escrituras impele ao diálogo da caridade e faz crescer o da verdade». De fato, ouvir juntos a Palavra de Deus, praticar a lectio divina da Bíblia, deixar-se surpreender pela novidade que nunca envelhece e jamais se esgota da Palavra de Deus, superar a nossa surdez àquelas palavras, que não estão de acordo com as nossas opiniões ou preconceitos, escutar e estudar na comunhão dos fiéis de todos os tempos: tudo isto constitui um caminho a percorrer para alcançar a unidade da fé, como resposta à escuta da Palavra. «No próprio diálogo [ecumênico], a Sagrada Escritura é um exímio instrumento da poderosa mão de Deus para a consecução daquela unidade que o Salvador oferece a todos os homens» (Concílio Vaticano II). As celebrações ecumênicas a esta causa. Neste caminho ecumênico reconhecemos aspectos a serem aprofundados, pois nos mantêm ainda distantes, como a compreensão do sujeito da interpretação com autoridade na Igreja e o papel decisivo do Magistério. E reconhecemos que a promoção das traduções comuns da Bíblia faz parte do trabalho ecumênico. João Paulo II afirmou: «Quem recorda como influíram nas divisões, especialmente no Ocidente, os debates em torno da Escritura, pode compreender quanto seja notável o passo em frente representado por tais traduções comuns».

Consequências sobre a organização dos estudos teológicos

47. Faça-se com que o estudo da Sagrada Escritura seja a alma da teologia, enquanto se reconhece nela a Palavra que Deus hoje dirige ao mundo, à Igreja e a cada um pessoalmente. É importante que os critérios indicados pelo número 12 da Constituição dogmática Dei Verbum sejam efetivamente tomados em consideração e se tornem objeto de aprofundamento. Evite-se cultivar uma noção de pesquisa científica, que se considera neutral face à Escritura. Além de tudo o mais, é necessário que os estudantes tenham uma profunda vida espiritual, para se aperceberem de que só é possível compreender a Escritura se a viverem. Recomendo que o estudo da Palavra de Deus aconteça sempre em profundo espírito eclesial, tendo em devida conta as intervenções sobre estas temáticas feitas pelo Magistério, o qual «não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente. Desejo pois que, segundo a doutrina do Concílio Vaticano II, o estudo da Sagrada Escritura, lida na comunhão da Igreja universal, seja realmente como que a alma do estudo teológico.

Os Santos e a interpretação da Escritura

48. A interpretação mais profunda da Escritura provém daqueles que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus. Penso, por exemplo, em São Basílio Magno, quando se interroga: «O que é próprio da fé? Certeza plena e segura da verdade das palavras inspiradas por Deus. O que é próprio do fiel? Com tal certeza plena, conformar-se com o significado das palavras da Escritura, sem ousar tirar nem acrescentar seja o que for». Santa Clara de Assis reproduz plenamente a experiência de São Francisco: «A forma de vida da Ordem das Irmãs pobres é esta: observar o santo Evangelho do Senhor nosso Jesus Cristo».Vemos também São Pio de Pietrelcina no seu ser instrumento da misericórdia divina; Beata Teresa de Calcutá missionária da caridade de Deus pelos últimos; e os mártires do nazismo e do comunismo representados, os primeiros, por Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), monja carmelita, e os segundos pelo Beato Aloísio Stepinac, Cardeal Arcebispo de Zagreb.
49. Assim a santidade relacionada com a Palavra de Deus inscreve-se de certo modo na tradição profética, na qual a Palavra de Deus se serve da própria vida do profeta. Neste sentido, a santidade na Igreja representa uma hermenêutica da Escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efetuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus. Pedimos ao Senhor que, por intercessão destes Santos, a nossa vida seja aquele «terreno bom» onde o Semeador divino possa semear a Palavra para que produza em nós frutos de santidade, a «trinta, sessenta, e cem por um» (Mc 4, 20).

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