CATEQUESE !!!

Fazei tudo o que Ele vos mandar (Jo 2,5)

Evangelho comentado pelo Pe Carlo Battistoni - XVIII Domingo - Lc 12,13-21

XVIII Domingo

(Lc 12,13-21)

 

 

«Alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. Jesus respondeu: “Homem, quem me constituiu juiz ou mediador dos vossos bens?” E disse-lhes: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. E contou-lhes uma parábola: “A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e fazer maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!’ Mas Deus lhe disse: ‘Insensato! Ainda esta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’. Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”»

 

 

O texto que acabamos de ler é inserido num capítulo do Evangelho de Lucas no qual o Autor quis sintetizar algumas atitudes de um discípulo. Na primeira parte do capítulo se apresenta o discípulo que aprende a ter um coração desprendido e, por isso, puro. A hipocrisia que Jesus vê presente em algumas pessoas que não aprenderam a confira em Deus é o resultado evidente quando se vivem duas vidas, isto é, quando se tenta conciliar interesses próprios com os requisitos que a fé exige. Sempre no mesmo capítulo Jesus apresenta a condição de liberdade que vive uma pessoa que aprende a confiar na providência de Deus. Na leitura de hoje vemos confrontadas, uma diante da outra, as duas mentalidades próprias de quem aprendeu a viver confiando-se em Deus e quem não nega Deus, mas age prescindindo Dele. As duas maneiras de ver o mundo são colocadas diante do único evento que é realmente objetivo, isto é, a morte. Ela tem o poder de declarar a verdade sobre nós mesmos e a nossa história, sobre o que cremos e as relações que geramos...

Como acontecia frequentemente, Jesus usou um fato do dia a dia para introduzir-nos mais e mais no estilo de vida que caracteriza uma pessoa que vive com amor a relação com Deus. A ocasião é dada por dois irmãos postos diante de uma herança.

Conforme a legislação judaica o primogênito possuía por direito a inteira herança do pai; contudo, com base em Dt 21,17, uma terceira parte da herança podia ser dividida entre os outros irmãos, mas isto não era obrigação. Normalmente acontecia que, após a morte do pai, de fato o primogênito não dividisse a herança, gerando assim fracionamentos na família; é por isso que o Salmo, em tom de auspício, exorta: «Como é bom quando os irmãos vivem juntos...» (Sal. 133,1). Foi uma situação como essa que se apresentou a Jesus. Alguém, indistinto no meio da multidão apelou a Ele. O fato é um pouco estranho, pois, Jesus era um leigo, ou seja, nem um rabino, nem um sacerdote e, por lei, cabia a um rabino ou sacerdote fazer justiça em contendas, não a um leigo. Disso se deduz que é bem possível que aquilo que o homem procurava não fosse realmente uma solução para a questão, mas uma autoridade moral sobre a qual se apoiar para fazer os próprios interesses. Ele queria fazer alavanca sobre a autoridade moral de Jesus para forçar seu irmão a dividir a herança. Digamos que precisava ouvir uma palavra que lhe desse as condições para requerer, em nome daquele Deus apresentado por Jesus, aquilo que lhe interessava de fato. É a velha questão ligada ao segundo mandamento que alerta o homem a não usar as coisas de Deus para finalidades próprias... A esse propósito nota-se que a palavra usada para indicar a “herança” (klhronomia) literalmente significa: “o que me cabe por lei de justiça”. Evidentemente aquela pessoa associava a “justiça” com a “repartição de bens” (obviamente não sem um interesse particular) e usava a Escritura como ponto de apoio moral. Estamos aqui diante de uma distorção da ideia de “justiça” segundo as Escrituras, pois o conceito de “repartição de bens” é muito tardio em Israel e foi forçado pela influência da dominação grega. “Justiça”, na mais singela tradição da Escritura, é bem mais que isso, (não temos aqui como nos delongar sobre o tema, contudo é bom saber que a palavra “justiça” indica mais a fidelidade do que a distribuição). Sendo assim, o fato de que esse homem apelasse a Jesus faz com que ele mesmo se revele por aquilo que é; uma pessoa, digamos, que usa das coisas de Deus  para si; é uma típica instrumentalização da pregação de Jesus. É, este, um fato que ainda hoje se repete toda vez que usamos das palavras da Escritura para finalidades que pouco têm a ver com o autêntico desejo de Deus. Trata-se de uma tentação para a qual nos adverte ainda hoje o Catecismo, quando nos recorda: “Não tomes Seu santo Nome em vão...”. Afinal, quanto é sutil o limite entre servir a Deus e se servir de Deus! Ora, é essa segunda intenção que Jesus censura; o Senhor não quer sujeitar-se ao jogo dos interesses privados: «Homem, quem me constituiu juiz ou mediador dos vossos bens?».

O trecho nos apresenta um paradoxo: aqueles que são constituídos irmãos por natureza estão divididos por causa de uma herança, a qual, contrariamente ao ocorrido, deveria servir para manter a unidade da família. Sim, porque se é verdade que o primogênito recebia praticamente toda a herança, é verdade também que e ele caberia providenciar tudo o que fosse necessário para o futuro de cada membro da sua família. Não era um patrimônio dado a uma pessoa, mas sim, entregue a uma pessoa, pelo bem da inteira família e de cada membro. Vemos, então, no comportamento do irmão, uma desconfiança latente em relação ao outro irmão!

O patrimônio, logo, era algo “consignado” ao primogênito, dado em função do bem do inteiro clã. Deste modo, é preciso ver neste episódio, não somente a cobiça encoberta por uma justificativa, mas a incapacidade daquele tal, “irmão”, de manter-se agregado à sua família. É preciso ver a indisposição dele de entregar suas necessidades ao irmão primogênito; enfim, o desejo de constituir uma vida autônoma, sem aquela ligação tão importante para o mundo oriental que era a família. Para esta família, como um todo, tinha sido dada a “herança”.

Estamos diante da imagem de um homem que não é capaz de confiar, que prefere possuir algo que lhe dê o tipo de segurança que deseja, do que ter a certeza de que não ficará desamparado.

Ora, Jesus usou esse caso como exemplo do que pode ocorrer com qualquer pessoa que dê início a um caminho com Deus, pois Ele, antes ou depois, não se contenta com “migalhas”, mas deseja uma entrega que envolve o homem inteiro, inclusive com o seus medos quanto ao futuro!

Esse homem é retrato do inverso daquilo que deve ser um discípulo; é o oposto do “fiel” como Jesus o deseja isto é, uma pessoa que não precisa possuir e apegar-se a bens que sirvam para preencher os vazios de insegurança que tem e que nascem quando se é incapaz de confiar em alguém. O discípulo confia, acredita em Deus, acredita que Ele é o Pai misericordioso e providente, um Pai do qual não precisa fugir para encontrar na autonomia a própria segurança. O fiel verdadeiro entrega tudo porque sabe que o patrimônio que está à sua disposição é bem maior e que Alguém cuida daquele patrimônio com justiça, que é fidelidade ao amor.

Podemos ainda notar na expressão: «vossos bens», a profunda desaprovação de Jesus quanto à curta visão do homem que considera os “bens” como sendo “o que cabe por lei de justiça”. Os “bens” são algo “vosso”, diz Jesus. “Bens” são exatamente o que Jesus não pode dar, “bens” são o que está em poder do maligno e que ele pode oferecer sempre, como está claro em toda a pregação de Jesus. “Bens” são as coisas que dividem irmãos, que dividem aquilo que Deus criou unido. “Bens” desencadeiam um processo de posse infindável, uma vez que esta avidez -como sabemos pela psicologia- é ligada a um inconsciente desejo de superioridade, que serve de compensação à insegurança de uma pessoa que não se sente amada ou que se fecha em seu mundo particular por várias razões. Diríamos nós, com um ditado popular: “tampar o sol com a peneira”.

Os “bens” são exatamente o oposto daquilo que Jesus veio dar. Creio que fique bem evidente como seja infundada uma certa visão de cunho Calvinista que hoje está na moda e que é disfarçada com o nome de “teologia da prosperidade”, pregada por alguma facções ideológicas de inspiração cristã!

Qual é, então a “herança” que o Senhor pode garantir? Seguindo a tradição bíblica, “herança” é inicialmente um termo associado à Terra Prometida (cfr. Gen 15,7), um território; contudo, mais tarde, devido principalmente à ação dos Profetas, a “Promessa” irá adquirir um sentido mais profundo. Se para Abrão uma terra e uma dinastia representavam tudo o que um homem poderia sonhar, o seu desejo mais profundo em prelação à própria vida, mais tarde, com o tempo, o conteúdo dos anseios dos homens mudou e com ele também se descobriu o “sentido mais amplo” da Promessa. Assim sendo, posteriormente, Israel compreenderá esta herança no seu significado maior, que se estende à Promessa do Reino. Tal “Promessa” é a resposta a tudo o que diz respeito aos anseios mais profundos do homem quanto à existência, ao sentido de viver, ao binômio “vida-morte”, dentro do qual se move a sua realidade... O caminho anunciado por Jesus é a resposta e a Promessa atuada. O Reino é a herança, segundo os Profetas e segundo Jesus. O “Bem” que Deus dá é o cumprimento da Promessa, em Jesus. Ele é a “Herança” no entender dos Evangelhos e dos outros escritos do Novo Testamento; creio que possa ajudar, neste sentido, a leitura do primeiro capítulo da Carta aos Efésios, realmente muito rica de significado.

À atitude daquele homem, Jesus contrapôs uma curta parábola que encontramos também em outros escritos da antiguidade cristã, como no Apócrifo “Evangelho de Tomé”.

O correto uso dos bens que temos à disposição sempre foi um assunto muito caro a Lucas. Na exposição que ele faz desta parábola o núcleo não consiste na iminência da morte que pode sobrevir como uma calamidade sobre o homem. Evidentemente não podemos pensar Jesus como um pregador apocalíptico o qual desdenha todos o esforços que o homem faz para melhorar sua condição. O mundo dos homens não é algo que será completamente suplantado pela morte e substituído por um “outro mundo”. Tal visão é profundamente alienadora enquanto desenraiza o homem do seu mundo e o projeta num mundo que não existe a não ser na imaginação. A questão é outra: qual é a atitude que corresponde a um uso correto dos bens? Qual atitude é mais adequada à orientação de Jesus?

A imagem é a de um proprietário terreiro que viu uma colheita superior a qualquer expectativa. Na narração encontramos o uso da expressão: «deu muito fruto». Reforçando deste modo o caráter de “dom” que a abundante colheita tem, Jesus referia-se deste modo ao caráter de “dom” que a herança tem, como vimos. Ela não é um “direito de lei” como entendia aquele individuo, mas sim um dom, algo simplesmente dado. Também nesta parábola o sujeito esqueceu que a abundância é “dada” e, por quatro vezes repete: «minha colheita», «meus celeiros », «meu trigo», « meus bens». Assim como o primeiro homem também este segundo fica à mercê do insaciável desejo de possuir, iludindo-se de encontrar aquela segurança que o deixaria feliz. A parábola gira em torno de uma expressão muito querida por Lucas: «O que farei?» (cfr. Lc 3,10.14;10,25;16,3 etc.). É a pergunta do homem diante de sua vida e de sua morte, é a pergunta que nasce da liberdade de poder orientar a própria vida. Esta pergunta se desencadeia com maior força quando acontece algo inesperado, tanto que seja bom quanto que não o seja. Aqui então o questionamento é sobre o que fazer com tudo o que Deus dá a mais do que o esperado. Saber escolher corretamente pode modificar a vida de uma pessoa. Infelizmente o agricultor não conseguiu, não soube definir um limite, não soube dizer “basta”, tudo foi interpretado como “direito dele” (o que no entanto não é errado); o problema é que foi interpretado “somente” como direito dele. E assim fez a opção que o discípulo verdadeiro não faria: escolheu para si. Deste modo perpetuava em si mesmo a prisão que nasce do medo do amanhã; escolhia a não liberdade; escolhia derrubar o que tinha, somente para fortalecer o seu medo quanto ao futuro.

Não é assim quando uma pessoa tem um relacionamento maduro, autêntico com Deus. Um relacionamento como entre pessoas que “sabem” o que uma deu para outra e por isso não podem duvidar minimamente do laço gerado.

Ao contrário daquilo que o homem pensava, na vida do discípulo o que dá segurança não nasce da posse nem do controle de bens, mas sim da capacidade de entregar, de dar. É uma segurança que nasce da reciprocidade. Pois somente esta qualidade caracteriza plenamente Jesus uma vez que é infinita assim como é no interior do próprio Deus-Trindade. É um intercâmbio continuo que se supera sem fim por amor. A posse insaciável, a incapacidade de dizer “é suficiente”, “não preciso”, é um dos sintomas mais claros de que algo não está certo na nossa relação com Deus e com as outras pessoas, nossos “irmãos”. Com certeza muitas podem ser as justificativas; são frases como: “mas isto serve para...”, “vou fazer...”, “é para obras de bem...” etc. No entanto, é preciso que sejamos sinceros: quanto de tudo isto é realmente dito com desapego? Quando, a incapacidade de dizer “basta”, na verdade esconde problemas sérios de relacionamento com Deus e consigo mesmos?

Esta posição ambígua é muito bem expressa com o atributo: «Insensato» que é dado ao agricultor. O significado histórico desta expressão se encontra reiteradamente no Antigo Testamento quando se quer indicar o homem que, teoricamente acredita em Deus, que seu comportamento aparentemente mostra um aspecto; de fato, depois, quando escolhe, quando decide o que fazer, toma uma decisão prescindindo de Deus, não O levando em consideração. É o homem que tem como ponto de referência as suas próprias decisões, sensações, projetos; assim, por exemplo, o Sal 14,1: «Diz o insensato em seu coração: “Deus não existe”», Sal 74; Jer 5,21 etc.

O resultado desta atitude ambígua é muito simples: um vazio perante Deus e perante si mesmo. É isto que resta quando o Bem é confundido com “os bens”.

 

Um bom domingo com a graça de Deus,

Pe. Carlo

Exibições: 308

Comentar

Você precisa ser um membro de CATEQUESE !!! para adicionar comentários!

Entrar em CATEQUESE !!!

CAPELA VIRTUAL

Vem meditar comigo

 

EU ESTOU AQUI

 

 

 

Membros

Fórum

Batismo em crianças

Iniciado por laila patricia 28 Set, 2015.

Confissão para a Primeira Eucaristia de Crianças (entre 11 e 13 anos) ?? 7 respostas 

Iniciado por Jorge -Catequista de Adolescente. Última resposta de Delourdes P. Prado 2 Jun, 2014.

1°Encontro

Iniciado por ana maria barbosa de araujo 21 Mar, 2014.

ESQUEMA DO ADVENTO 1 resposta 

Iniciado por JOZIAS DE ALMEIDA ALBUQUERQUE. Última resposta de Jorge Kontovski 7 Jan, 2014.

Fotos

  • Adicionar fotos
  • Exibir todos

Badge

Carregando...

LINKS

Estes contam com o meu apoio:

Baixar Livros Gratis em PDF
Baixar Livros Gratis

CATEQUESE E LUZ

PEQUENAS IRMÃS DA SAGRADA FAMÍLIA

Image

 

A PAIXÃO DE SER CATEQUISTA

Image

 

© 2017   Criado por Jorge Kontovski.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço