CATEQUESE !!!

Fazei tudo o que Ele vos mandar (Jo 2,5)

 

CANTO AO CRISTO


Quero cantar-Te, CRISTO,
CRISTO amigo, pai, irmão e companheiro.
Quero cantar-Te
Na pobreza da manjedoura,
No trote do burrico, na fuga para o Egito.
Na sabedoria do menino ensinando os doutores,
Nas gotas de sangue pelos espinhos da coroa,
Na fraqueza da dor humana confessada na cruz.

Quero cantar-Te, CRISTO,
Não nas canções estilizadas
Dos que Te cantam sem sentir-Te;
Não nas esculturas místicas
De Tua imagem de plástico,
Mas na realidade orgânica de Teu corpo,
De Teus ossos e de Teus músculos
Pregados no madeiro infamante.

Quero cantar-Te,
Não nos desenhos coloridos
Que mostram Teu rosto sem marcas,
Mas na face de martírio impressa no sudário.
Quero cantar-Te,
Não no aplauso ao Deus renunciante,
Nem no elogio contrafeito às Tuas divinas capitulações,
Mas na condenação aos maus de ontem
Que continuam sendo os maus de hoje.

Quero cantar-Te, CRISTO,
No hino do trabalho,
Na Tua santa rebeldia a César e à sua lei,
Na ira sagrada que explodiste no Templo,
Vergastando os fariseus,
Quebrando ídolos de barro
E expulsando os vendilhões.

Quero cantar-Te, CRISTO,
Como filho de operário,
Como pescador de peixe e de almas,
Como amigo traído pelo amigo,
Como esquecida revelação do bem
E como contestação à violência.

Quero cantar-Te, CRISTO,
Em nome da verdade perseguida,
Em nome da paz humilhada pelos brutos,
Em nome dos que sofrem fome e sede de Justiça.
Em nome dos que, como Tu, morreram e morrem
Sentenciados pela prepotência da força.

Quero cantar-Te, CRISTO,
Num gesto de condenação aos egoístas,
Num olhar de desprezo aos que odeiam,
Numa palavra de repúdio aos que agridem,
Numa exclamação de nojo aos contam juros
E não sabem contar histórias de amor.

Volta, CRISTO, e recebe meu canto:
Para compô-lo, emprestei a voz do futuro,
Para dizê-lo, aprendi o verbo da esperança,
E para entoá-lo – pudesse eu! – formaria
O grande coral humano de todos os homens,
De todas as mulheres e todas as crianças da Terra.

CRISTO, filho do homem,
Homem, filho de Deus,
Se de novo Te fizeres Verbo
E vieres habitar entre nós,
Muito haverás de chorar,
Como choraste no Horto das Oliveiras.

Haverás de chorar aquela menina asiática
Que a bomba incendiária transformou em chamas;
Haverás de chorar os que disputam heranças,
Como os guardas disputaram os dados no Gólgota;
Haverás de chorar a moderna glorificação de Barrabás,
Num estranho aplauso ao heroísmo do crime;
Haverás de chorar aqueles muitos outros
Que, como Pilatos, lavam as mãos e sujam a consciência.

Haverás de chorar as guerras,
O homem lobo do homem,
A destruição científica da vida,
A tecnologia a serviço da morte
E a ambição impiedosa dos genocidas.
Chorarás a devastação dos bombardeios,
Os desfolhamentos químicos desnudando as árvores,
E o ventre da terra, sem semente germinando,
Mostrará sua violação pelos obuses e morteiros.
Chorarás os aprendizes da feitiçaria da violência,
Que perderam os caminhos da paz
E vão, presas do próprio medo,
Ensaiando o grande suicídio coletivo.

Haverás, ainda, de chorar muita coisa:
Chorarás os suntuosos sepulcros de mármore,
Os modernos apedrejadores de adúlteras,
Os que, até hoje, querem ver para crer,
Os que não tem fé por vergonha humana.
Chorarás os que coam um mosquito
E engolem um camelo.
Chorarás o progresso desumanizado
E a civilização morrendo poluída.

Chorarás por Ti mesmo,
Pelas Tuas dores, pela Tua angústia,
Pela Tua morte, pelo Teu martírio
E pela Tua glória.
E tudo isto haverás de chorar
Se de novo Te fizeres Verbo
E vieres habitar entre nós.

CRISTO, filho do homem,
Homem, filho de Deus,
Embora muito tenhas que chorar,
Embora muitos venham a trair-Te
E de novo queiram crucificar-Te,
Embora muitos possam zombar de Ti
E de novo queiram coroar-Te de espinhos,
Embora muitos possam vender-Te por trinta dinheiros,
Embora muitos daqueles
Que hoje usam e abusam de Teu nome
Venham a negar-Te antes e depois de cantar o galo,
Embora Tua dinastia divina
Possa, mais uma vez, sofrer escárnio,
E Teus naturais direitos humanos
De novo não encontrem sentença que os reconheça,
Embora tudo isso,
É urgente que voltes à Terra
E que venhas multiplicar os homens de boa vontade.

Volta, CRISTO, e de cima do monte, repete,
Para aqueles que têm ouvidos de ouvir ouçam;

- Ai de vós, fariseus hipócritas,
Que profanais o Meu Natal
Com as mentiras de papai noel,
Que promoveis banquetes e festins
E não convidais nenhum pobre, nenhum coxo, nenhum cego.

- Ai de vós, fariseus hipócritas,
Que devorais as casas das viúvas,
Que dais redentoras esmolas
Fazendo, antes, soar bem alto a trombeta,
Para que todos saibam e aplaudam
A vossa vaidosa caridade.

- Ai de vós, fariseus hipócritas,
Que vos fartais com a fome do mundo,
Que vendeis armamentos de guerra,
Que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho,
Mas que vos esqueceis de praticar
A Justiça, a Misericórdia e a Fé.

- Ai de vós, fariseus hipócritas,
Que tomais em vão o Santo nome do Senhor,
Que fazeis guerras em nome das religiões,
Que pondes remendos novos em panos velhos,
Que pouco vos importais que se perca todo o rebanho,
Que pretendeis salgar com o sal insípido,
Que vos vestis de púrpura e continueis negando
A Lázaro as migalhas de vossos banquetes.

Volta, CRISTO!
CRISTO amigo, pai, irmão e companheiro.
Volta depressa,
Volta antes que se consume a Grande Tragédia Humana;
Volta logo para evitar que o mundo se transforme
Num grande túmulo fumegante e sem ressurreição,

Volta, CRISTO!
Se voltares, eu, Tu, os poetas e os menestréis,
Os simples, os solitários e os famintos,
Os justos e os humilhados,
Os silenciosos e os silenciados,
Os pacíficos e os amargurados,
Todos nós,
Na multiplicação universal de todos os homens,
De todas as geografias, de todos os sangues,
De todos os credos e de todas as origens, – todos -,
De mãos dadas e de corações somados,
Faremos florir pelos horizontes do espaço
E pelas fronteiras do tempo,
Todos os milagres do amor.

Se voltares, CRISTO,
Faremos luzir o ouro das espigas de trigo
Para que todos tenham pão,
Cantaremos o poema da solidariedade
E seremos todos bons samaritanos.
Limparemos a lepra do ódio do coração do homem
E acenderemos candeias onde haja escuridão,
Ensinaremos a palavra ternura
E rezaremos preces no altar das flores.
Recitaremos a poesia da consciência livre
E teremos a força da verdade que liberta,
Pregaremos o sermão da fraternidade
E enxugaremos a lágrima do irmão que chora.

Se voltares, CRISTO,
Transformaremos os canhões em tratores,
Os ninhos serão só de pássaros e não de metralhadoras,
Os aviões voarão com as asas da concórdia,
Os foguetes mísseis transportarão remédios,
Todos os navios pertencerão a todos os portos,
E antes de conquistar a Lua, Marte e Vênus,
Conquistaremos a alma humana
E a felicidade,
A suprema felicidade de ser gente.
Por tudo isto e para tudo isto,
É urgente que voltes à Terra.

Volta, CRISTO, e traze na mão Tua espada de luz
Para com ela cortar as trevas humanas
E transformar numa alvorada nova
A noite negra do nosso destino.
Por tudo isto e para tudo isto,
Nós Te esperamos, ó Homem de Nazaré;
Não para ungir a agonia do Homem,
Mas para que não morra, no Homem, a imagem de Deus
E nem se perca a obra da Criação.

Nós Te esperamos, CRISTO amigo,
Com o desespero daqueles que,
Por terem perdido o Caminho e a Paz,
Estão perdendo a Fé, a Esperança e a Caridade.
Nós Te esperamos como último abrigo,
Último abrigo contra as bombas de nêutrons
Que destroem a vida sem destruir as casas
Que, então, serão moradas vazias,
Serão catacumbas de espectros e de silêncio,
Serão lares de pais, mães, filhos, netos,
Todos mortos...

Nós Te esperamos, dolorosamente perplexos,
Ante a fatalidade irremediável das ameaças
E das promessas macabras e de horror
Que pesam sobre nossa angústia desarmada.

Vem, CRISTO,
E aplaca a loucura dos Neros de hoje,
Não lhes permitindo atear fogo ao mundo.
Vem, CRISTO,
E detém o tropel, sinistro e próximo,
Das bestas do Apocalipse eletrônico.
A humanidade não tem forças contra o átomo assassino,
A humanidade sofre o pavor da guerra química,
A humanidade está doente de terror e de dúvidas.
Salva a humanidade, Rabi da Galiléia!
Tu mesmo disseste
Que os fracos, os sofredores e os enfermos
Eram Teus filhos prediletos, e Tu os vieste salvar.
Volta, pois, e salva-nos,
Ainda que desta vez tenhas que vibrar o chicote,
Tenhas que dar bofetadas ao invés de recebê-las,
E ainda que desta vez tenhas que dizer
Que Teu Reino é também deste mundo,
E, ainda mais, que tenhas que opor
Às potências e superpotências belicosas
As legiões de anjos de Teu Pai.

Volta, CRISTO,
Nós Te esperamos hoje, já, depressa,
Sem perda de tempo e sem atraso.
Nós te esperamos agora,
Antes que a loucura atômica nos leve ao Nada,
Antes que a guerra nuclear nos reduza a cinzas
E antes que seja tarde demais...


Francis Lai - Disperatamente Giulia (1989)
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