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EVANGELHO COMENTADO PELO PADRE CARLO BATTISTONI

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V DOMINGO DO TEMPO COMUM
(Lc 5, 1-11)



01. Um dia, Jesus estava na margem do lago de Genesaré, e a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus.

02. Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago. Os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes.

03. Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões.

04. Quando acabou de falar, disse a Simão: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”.

05. Simão respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”.

06. Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam.

07. Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem.

08. Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!”

09. É que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer.

10. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”.

11. Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus
.



Um dia... . É assim que costumavam os antigos transmitir aquelas experiências de vida que deveriam transformar-se num tesouro para os mais jovens. Na brevidade desta expressão estava contida a certeza de que certos valores transmitidos não seriam perdidos, pois serviriam de base para filhos e netos no dia em que estes tivessem que tomar aquelas decisões que outro, em seu lugar, não poderia tomar.

Coloquemo-nos com esta atitude diante da leitura de hoje, pois o que temos diante, é mais do que uma história, é o episódio chave que marcou a vida de algumas pessoas que arriscaram a sua existência em modo definitivo em favor de Deus. Aquele “dia”, ficou marcado de modo único na história dos quatro pescadores. O dia de pesca que estava encerrando, de repente se transformou no início de um dia eterno. A beira do Lago de Genezaré de repente se tornou apertada demais para eles quando Jesus interviera em suas vidas sem pedir licença; daí em diante outras terras e mares os esperava, sem que eles o soubessem. Tudo podia começar ou não começar. Tudo dependeria daquele dia.

Imaginemos, então, esta história narrada pelos Evangelistas, a história daqueles primeiros fiéis titubeantes, incapazes de se definir entre a própria vida particular e a incógnita experiência de conviver com Jesus de modo mais íntimo e objetivo. Imaginemos também a nós mesmos, sentindo os sentimentos daqueles que nos precederam na adesão incondicional a Jesus. Talvez isto nos ajude a saber fazer a escolha certa para a nossa vida, talvez nos dê coragem de arriscar, talvez nos possa desvendar em que consiste o mundo de felicidade que transparece sempre do olhar de uma pessoa que encontrou o sentido de sua vida. Vejamos ao acompanhar a leitura, sem alguma pretensão e sabendo que estamos diante de uma cachoeira de graças da qual podemos tomar apenas um copo.

Inicialmente, o Evangelista coloca lado a lado, sem intersecção, duas cenas que correm paralelas. Jesus estava dando início ao seu ministério; a fama de algumas curas havia se espalhado entre os habitantes, quase todos pescadores do lago de Genezaré. A curiosidade e um vago sentido religioso -que alimentava a esperança de um “messias” originário justamente daquela região, conforme o pensamento dos profetas- aglutinavam uma multidão em torno de Jesus. O atropelo da multidão que pressionava o Senhor é próprio da religiosidade popular, que precisa tocar, precisa sentir-se envolvida, precisa “apalpar” a sensação que finalmente está ali algo novo, diferente do quotidiano. Mas não era somente um instintivo comportamento religioso que movia a multidão, sabemos que estavam ali para ouvir a Palavra de Deus.

Outras vezes os Evangelhos nos descrevem a multidão que pressionava Jesus de todo lado e também o comportamento de Jesus o qual deixava isto acontecer sem se incomodar; é assim, por exemplo, no caso da mulher que sofria de hemorragia, das crianças, quando os parentes de Jesus tiveram que chamá-lo de volta para casa, etc. No caso narrado hoje, Jesus escolheu dar um limite a esta atitude da multidão: querer sentir, tocar, quase que se apoderar da sensação encantadora que Jesus transmite com a sua presença é bom, é importante, é o passo inicial de qualquer caminhada de fé, mas... é somente o primeiro momento. É ilusão crer que basta “apinhar-se” em torno de Jesus e viver de sensações, é ilusão crer que isto signifique ser cristão; as sensações como vêm, vão. Esta é a primeira mensagem que Lucas deixa aos cristãos às quais dirige o seu Evangelho. Àqueles que ainda se aproximam da fé para “sentir” o que desejam “sentir”.

É preciso mais um passo. Jesus entrou num dos barcos atracados, afastando-se das pessoas as quais pretendiam uma “sua” maneira de possuir Jesus. Ele se distanciou, mas não deixava de fazer-lhes ouvir a Sua palavra. Estamos aqui diante de um momento mais maduro do relacionamento com Jesus: às vezes Ele nos priva de satisfações imediatas, aquelas às quais mais facilmente nos prendemos e que mais imediatamente parecem dar respostas aos nossos anseios. Todavia, somente assim, quando Deus parece ter se afastado da nossa possibilidade de apalpá-lo, somos estimulados a fazer um ulterior salto qualitativo em nossa fé: deixar as sensações para saber escutar. Jesus se afastou, mas continuava dando-lhes a Palavra de vida. De fato, quando diminuem as nossas satisfações imediatas é que estamos mais sensíveis, atentos às outras coisas que Deus quer nos dizer. É aqui que aprendemos a ouvir, deixando em segundo plano as sensações e os resultados.

A segunda cena, que corre paralela, é uma declarada e delicada contraposição ao “mundo” descrito pouco antes: o mundo da multidão, que representa a maneira de pensar daqueles que buscam Jesus do “seu” jeito. A estes, Jesus não denega sua atenção e disponibilidade; a estes, Jesus se dá do modo que eles desejam, mesmo fazendo o possível para educá-los a não se limitarem numa única maneira de se encontrar com o Senhor. Todavia bem outra é a relação que Jesus quer estabelecer com alguns outros, aos quais entregará os mistérios do Reino de Deus não por meio de palavras, mas através de uma associação de vidas realizada progressivamente, vidas de homens que aprendem a conviver com Deus. Vidas fundidas entre homens e destes com o Senhor.

Se a primeira categoria de pessoas, a multidão, estava com a sua atenção apontada para Jesus a fim de encontrar Nele o que eles precisavam, um grupo de pescadores, mesmo percebendo o que estava acontecendo, na verdade tinha as atenções voltadas para o trabalho quotidiano, a vida que corria como sempre. Os sentimentos eram dominados pela decepção de um vazio que se expressava no ritual do gesto mecânico de limpar e dobrar as redes, para a pescaria do dia seguinte,... Dia que nunca viria!

Ao contrário da multidão, Jesus foi quem interveio na vida dos quatro. Entrou sem muitos preâmbulos e tocou diretamente aquele núcleo existencial escondido em toda pessoa, que torna possível ou impossível uma relação de comunhão, relação na qual os corações se fundem. Estamos diante de uma das características para reconhecer uma autêntica vocação: mesmo considerando que de fato se verificam condições oportunas (“coincidências” como diriam alguns); na prática, é Jesus que entra direto na vida daquele que Ele escolhe. E Ele pede, pede sem muitos receios, pede sem medo de “ofender” a sensibilidade, como fez com pescadores experientes os quais, com certeza, conheciam o seu trabalho bem melhor do que um carpinteiro que parecia querer ensinar o “pai nosso ao vigário”.

Jesus dirigiu a sua palavra tanto para a multidão, quanto para os quatro; a maneira como esta é recebida é que permite a diferença de relação, a intimidade de vida, a dedicação total ou parcial. Os primeiros escutavam e se deleitavam com a palavra. Para os quatro pescadores esta se apresentava com toda a força de um desafio real, envolvente. Era o limite entre acreditar na própria experiência de anos e anos, ou confiar em alguém que não parecia dar muita credibilidade quanto à sua experiência de pescador! O que fazer?

Porém, é diante de um impasse que se decide a vida. Por um lado eles tinham todas as motivações lógicas para agir numa determinada maneira, isto é, confiando sobre a própria experiência, a própria história de pescadores etc. Por outro lado, uma vaga, estranha, incompreensível e inexplicável atração os induzia a agir irracionalmente. O que escolher? Naquele momento tinham, sem o saber, a possibilidade de conhecer a lógica com a qual Deus age. Uma lógica para a qual o Senhor os conduziria durante toda a sua vida, a mesma lógica com a qual, no final de sua vida, Jesus dirá a Pedro: Alguém colocará para ti o cinto e te levará onde você não havia decidido ir. Lançando as redes não obstante tudo, aprenderiam a lógica de deixar o trono das próprias certezas e consignar-se à grandeza de um projeto bem maior do que duas barcas de pesca.

E assim, Pedro e os seus, aprenderam a escolher. E foi disto que nasceu a vida que hoje podemos viver, a vida da fé, da comunidade cristã que, no decorrer dos tempos renova a sua adesão a uma lógica que não coincide com o modo de pensar comum.

Daquele momento em diante a lógica dos quatro pescadores seria uma lógica que só é norteada pelo misterioso fascínio da entrega. Entrega que é amor puro.

Com grande maestria, o Evangelista enriquece de detalhes simbólicos a narração, para que sirva de ensinamento a todos os cristãos titubeantes.

Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca. Parece ser uma discordância gramatical, mas não é sem intenção. Jesus falou primeiro a Pedro (avança), pois a ele caberia a missão de conduzir a comunidade daqueles que sempre se entregam à nova lógica. Aos outros (lançai, plural) cabe lançar as redes, fazer tudo o que está ao seu alcance, dar as forças, o entusiasmo, a coragem que tornará possível aquele resultado que Deus deseja. Conduzir onde? Avançar para...? O simbolismo de Lucas nos remete ao Salmo 107; a este se referem as palavras usadas pelo Evangelista. Permito-me transcrever algumas alíneas do Salmo 23(24):
Os que, tomando navios, descem aos mares,
os que fazem tráfico na imensidade das águas,
esses vêem as obras do Senhor e as suas maravilhas
nas profundezas do abismo

O “abismo” então é o lugar onde Deus mostra o seu poder. Não aonde tudo é fácil, mas sim no “abismo” dos homens, lá onde as coisas parecem engolidas pelas trevas; lá aonde se escondem os nossos medos. Lá Deus age e pesca peixes maiores de tantos outros. A palavra “maravilha”, aquela sensação que induz Pedro a lançar-se aos pés de Jesus, inclinado-se assim simbolicamente à nova lógica proposta pelo Senhor, é a mesma que a Escritura usa toda vez que se refere às obras grandiosas de libertação que Jahvé cumpriu na história de Israel e cumpre na vida das pessoas. É aos “abismos” da humanidade que a Igreja é enviada, carregada de uma lógica nova, que nunca deverá perder, sob pena de perder a sua característica de ser uma proposta alternativa. Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo acaloradamente dizia Paulo aos cristãos de Roma (Rm. 12,2).

Não é apenas para aqueles que, por si próprios, já estão em busca sabendo –bem no fundo- o que querem. Jesus pede a todos os que foram forjados pela força de acreditar apesar de toda evidência, que mergulhem no abismo dos homens, das estruturas, dos dramas. Ali, naqueles abismos humanos Jesus fará maravilhas uma vez que a sua comunidade será capaz de se lançar. Os outros, de um modo o de outro receberão o que desejam, mas Jesus enviou Pedro e aqueles que deixam o trono de suas convicções particulares, para os abismos onde, conforme a crença da época, moravam os monstros escusos e terríveis que atormentavam o homem.

A imagem da rede é retomada nas parábolas do Reino e é uma rede que não “arranca” o peixe fora da água dando-lhe a morte, mas é apresentada nas parábolas como o instrumento que “reúne” peixes de todo tipo. Esta lógica, que pesca no abismo, é capaz de reunir no reino todos aqueles que não se contentam com a sensação, não se contentam em tocar ou escutar a palavra para satisfazer suas necessidades, mas que, estando mergulhados no abismo na escuridão, buscam uma resposta existencial e totalmente alternativa, nova, desafiadora.

Muitas pessoas que estão “no abismo” estão ali por não se identificar com uma religiosidade que simplesmente vive de sensações ou movimentos de massa, são pessoas que exigem uma proposta totalmente diferente das propostas que qualquer homem possa fazer. Exigem uma proposta divina.

E o “espanto” de Pedro foi que a confiança que ele depositou em Jesus trouxe na rede-reino uma enorme, inimaginável, quantia de peixes, justamente de dentro do abismo.

Foi assim que Pedro e os três ofereceram suas vidas e, deixando tudo, O seguiram.

Um bom domingo
Pe. Carlo

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"O cristão deve ter a Biblia todos os dias; o mês da Biblia é apenas para enfatizar essa necessidade."

De Jovita, com grande consideração. (abraços)...

Criado por 29 Ago 2008 at 5:52. Atualizado pela última vez por Jorge Kontovski 16. Out, 2008.

Agradecimento

Obrigado Jovita! O centro da nossa vida (e da nossa catequese) sempre foi, é e será a Biblia.

Criado por Jorge Kontovski 12 Set 2008 at 12:45. Atualizado pela última vez por Jorge Kontovski 12. Set, 2008.

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