XV Domingo do Tempo Comum
(Mc. 6,7-13)
7. Jesus chamou os doze, e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos impuros.
8. Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura.
9. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas.
10. E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida.
11. Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles!”.
12. Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem.
13. Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo
A leitura do domingo passado nos recordou a dificuldade de Jesus em ser aceito, em sua cidade, Nazaré, justamente pelas pessoas que poderiam mormente se beneficiar de sua presença.
A oferta de Jesus é para todos, é um convite aberto que não se impõe; é discreto e silencioso. Jesus segue o estilo de vida que lhe fora proposto pelo Pai no dia em que, ao iniciar sua ação de anuncio ouviu, endereçadas a si, as palavras de Isaias :
Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz. Naquele dia a seus ouvidos ressoou também o restante das palavras de Isaías que Lhe indicariam o estilo com o qual o Pai queria fosse anunciado o Reino:
... e ele promulgará o direito para os gentios. Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça. Não quebrará o caniço rachado, não apagará a mecha que ainda fumega. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a tocha que fumega; em verdade, promulgará o direito. Não desanimará, nem se quebrará até que ponha na terra o direito; e as terras do mar aguardarão a sua doutrina (Is 42,2s).
Jesus sempre se compreendeu como o “servo” do Reino. Também na ocasião não se deixou prender pelo fato de ter sido recebido ou não pelos habitantes de Nazaré. È verdade, sentiu muito por não ter conseguido dar-lhes tudo quanto poderia ter dado; é verdade, chorou também sobre Jerusalém que “mata os profetas” mas nunca violentou a liberdade do homem, o qual pode sempre escolher, até o que lhe é prejudicial. Jesus é servo do mistério da salvação que a nenhum homem é dado conhecer, é servo que nos recorda também a nossa posição diante do projeto do Pai.
Existe um dificílimo equilíbrio entre “sentir-se servo” e “apoderar-se” de uma realidade, por quanto bem intencionado que sejamos. Isto se torna ainda mais evidente quando estamos envolvidos com as coisas de Deus. Sim, porque Ele tem linguagem, tempos e caminhos diferentes dos nossos. Assim, acontece que, quando sentimos verdadeiramente a responsabilidade de algo muito importante que nos é entregue e que amamos tanto a ponto de por à disposição grande parte da nossa vida e nossas forças, contemporaneamente surge a tentação que nos leva a perder o limite entre o “sentir-se” servo e dono. Toda vez que realmente vivemos e amamos o que fazemos, colocamos parte de nos mesmos naquilo que fazemos, de certa forma o permeamos de nossa personalidade, o tornamos “personalizado” (como se costuma dizer), da mesma forma que, embora seguindo a mesma receita, duas mulheres fazem o arroz com “sabor” diferente.... Porque? Pois bem, a diferença está exatamente no fato de que permeamos o que fazemos com o nosso ser, o nosso caráter, a nossa paz ou agressividade...
O que fazemos respira o que somos.
Obviamente isto, além de ser uma conseqüência natural, é índice de que realmente nos apaixonamos (ou não) por aquilo que fazemos. Isto é maravilhoso por um lado, por outro lado, porém é fácil que a relação entre o que somos e o que fazemos seja tão intensa que nos identifiquemos com o que fazemos. Isto se torna perigoso em primeiro lugar para nós, porque cada homem é muito mais daquilo que faz e, em segundo lugar, para o próprio projeto de Deus. De fato, permeando demasiadamente, “personalizando” ao extremo o que fazemos em função do projeto de Deus, acabamos fazendo com que este manifeste mais a nos mesmos do que o próprio Autor do projeto. Aqui se verifica a distorção do limite entre ser servo e dono.
Desta forma, já que os caminhos de Deus são diferentes e nem sempre batem com os nossos, é fácil que entremos em crise quando Deus nos recorda que o projeto é dele, não nosso.
Então, o que deveria ser vivido com segurança e serenidade, porque encarado com liberdade, começa a ser poluído por sentimentos de incerteza, desejo de controlar, eficientismo etc. Aqui, Isaias nos recorda os elementos que nos permitem identificar quando começa a verificar-se em nós a tentação de passar de servos a donos:
Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça... e nem
desanimará.
Querer impor e forçar, bem como desanimar diante das circunstâncias que não são o que esperamos, é sempre sinal de que nos apoderamos de algo que não nos pertencia. Era isto que Jesus recomendava aos seus ao dizer-lhes:
sacudi a poeira dos pés, ou seja, “demonstrem a plena liberdade quanto ao resultado, que este não fique apegado em vós”. Noutra ocasião, ao regressar da missão a que Jesus os havia enviado, os discípulos voltaram felizes porque
até o demônio se submetia a eles; mas isto não agradou nem um pouco Jesus, (Lc. 10,18-20) porque não é o resultado que interessa a Deus, mas a maneira de viver aquilo que Ele nos dá a viver, pois a maneira de fazer isto é que será “testemunho”, não o resultado.
Jesus, associando à sua ação a dos Doze apóstolos, continuará servindo o Pai e, indicava aos Discípulos o estilo com o qual isto deve acontecer: um anúncio discreto, escondido, sem muito alarido; integrando-se simplesmente no cotidiano das pessoas.
Para que o anúncio seja eficaz, é necessário que eles também sejam desprendidos. È isto que significa a expressão “sacudir o pó de seus sapatos”; não é desprezo, como às vezes tem sido interpretado, é puro desprendimento, de quem sabe que o projeto não pertence a nenhum servo. Não se pode carregar mágoas nem desânimo por causa de um aparente insucesso. Esta liberdade se transformará em testemunho, será a mais clara demonstração de amor-serviço que não quer nada pra si, nem resultados nem fracassos. É liberdade de estar à plena disposição, confiantes em Quem é o Autor do projeto de salvação.
Seguindo a mesma lógica, Jesus reconduz à essencialidade do anúncio cristão que encontra sua eficácia não tanto em técnicas ou pedagogias, em “organogramas” ou eficiência, quanto na força da proposta alternativa que carrega em si.
O anúncio pode se valer de tudo, mas não depende nem da bolsa de dinheiro, nem da sacola de pão, como também de duas túnicas (usadas em ambientes diferentes, em situações que exigiam uma certa “apresentação”). Somente um cajado é suficiente, um cajado para se apoiar durante a viagem cansativa e para se defender de cães selvagens ou lobos. Um serviço humilde e desprendido que tem como referência única o desejo de servir a Deus com o mesmo estilo de vida de Jesus. É isto que fala do Céu às pessoas que entendem a linguagem da terra.
Um bom domingo com a graça de Deus. <>
Pe. Carlo