XXXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM
Jesus Cristo, Rei do Universo
(Jo19,33-37)
33. Pilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: “Tu és o rei dos judeus?”.
34. Jesus respondeu: “Estás dizendo isto por ti mesmo ou outros te disseram isto de mim?”.
35. Pilatos falou: “Por acaso sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?”.
36. Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”.
37. Pilatos disse a Jesus: “Então tu és rei?”. Jesus respondeu: “Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.
O encerramento do ano litúrgico de algum modo nos remete a toda a dimensão da história humana; percorremos por meses e meses o itinerário de fé que os Evangelhos nos propuseram quase a significar o caminho que durante toda a vida somos convidados a percorrer, então, a solenidade de hoje se nos apresenta como o desfecho de todo este caminho, não somente em nível pessoal, mas, como celebra a liturgia, em nível universal. O reinado de Cristo, deste modo, é o resultado de toda uma história, de uma maneira de existir; não se trata de um simples título sentimental.
Não foi fácil para os primeiros cristãos designar a Jesus como “rei”, por isso precisamos dar o devido respeito e atenção a uma fórmula que custou a vida de muitas pessoas. Se, por um lado é verdade que o título tem antigas raízes e que foi usado por Jesus como comparação em suas parábolas, é verdade também que nunca Jesus se proclamou rei, nunca permitiu que alguém o reconhecesse como rei de Israel; somente o fez durante o processo, como acabamos de ler. Então, por que os primeiros cristãos chamaram Jesus de rei? Na Roma imperial desde Augusto (isto é, desde o 27 a.C.) os Imperadores adquiriram o título de Divinos Pontífices (não vem ao caso discutir aqui os limites desta afirmação); fato é que, na linguagem da população, realeza e divindade eram reconhecidas como qualidades substancialmente ligadas uma à outra. Foi neste contexto então que os primeiros cristãos quiseram afirmar que nenhum homem é Deus, a não ser Jesus. E, evidentemente, esta fórmula de fé custou vida e sofrimento a muitas pessoas. As imagens mais antigas de Jesus na cruz O representam de pé, com trajes de rei, com alguém que triunfou, proclamavam assim a verdadeira diferença entre a realeza como poder e a realeza como serviço.
É com este contraste de mentalidades que se abre o nosso trecho do Evangelho que mostra duas pessoas face a face, dois homens que trilharam dois caminhos diferentes em suas vidas. O diálogo é entre elas, só por segunda instância toca a condição em que os dois se encontram: ambos em posição de autoridade. São duas mentalidades que refletem os dois pólos do mundo, as duas propostas que, desde sempre, colocam cada homem diante de si mesmo. O que é autoridade, o que é poder, com se alcança. Pilatos procura saber sobre esta “verdade”, Jesus dá testemunho da “verdade” sobre a autoridade. Pilatos fez de tudo em sua vida para manter a posição política que tinha e que era a sua motivação de vida (a sua história narrada por Josefo Flávio mostra tudo o que ele fez para se sustentar na posição que tinha, a despeito de pessoas e valores); Jesus não buscou uma realeza, ma esta lhe foi reconhecida, e isto por um pagão e por um malfeitor, justamente quando Ele não tinha mais a força demonstrativa e esmagadora que vem do poder. Duas vidas, duas maneiras de se entender no mundo, qual é a verdade?
Pilatos tem diante de si um homem amarrado e, com uma ênfase que expressa o seu sentimento de “decepção” Lhe diz:
Tu és o rei dos judeus? que podemos entender assim: “então está tudo aqui o que os Judeus reconhecem como seu rei? Um homem preso e traído pelos próprios súditos? À total mercê da minha espada? É só isso?”
Jesus não responde com um “sim” ou “não”; a sua atitude, de homem amarrado, tem ainda uma delicada atenção para quem O prendeu: tenta conduzir Pilatos à verdade, à verdade que Ele sente dentro do coração prescindindo das opiniões e conveniências:
Estás dizendo isto por ti mesmo ou outros... . O serve ainda. A verdade liberta as pessoas, era isto que Jesus sugeria a Pilatos, mas ele não sabia ainda o que fosse a verdade porque quando se busca o poder se vive continuamente com a necessidade de mentir sobre as relações, sobre si mesmos, sobre os fatos... Poder e verdade nunca combinam; isto foi claro para Jesus desde os primeiros momentos do anúncio do Reino. Foi isto que o demônio Lhe propôs: o caminho do poder; um poder ligado aos milagres, ao domínio, à distorção da vontade de Deus. É a mentira, é o que se opõe a Deus.
A Escritura chama “rei deste mundo” todos àqueles que seguem estes objetivos e se opõem a Deus. O demônio tem o poder de fazer milagres e dar riquezas, mas não tem o poder de amar, de dar a vida... Esta era a verdade de Jesus a diferença entre poder e serviço, entre o fazer e o dar. O contraste é tão mais evidente quando Jesus está na cruz: aqueles que entregaram a própria vida à lógica do poder pediam a Jesus que fizesse uma esmagadora demonstração de poder:
desce da cruz... . O malfeitor, ao contrário, conseguiu ver a realeza de Jesus:
Quando entrar no teu reino... sem ver o seu poder; e mais ainda, ele nos disse em que consiste a realeza com as suas palavras:
«lembra-te de mim... . Dizendo isso ele tocou com suas mãos o significado mais singelo da realeza.
De fato, na antiguidade alguém era reconhecido “rei” pela sua superioridade moral, pela coragem de compreender e defender o seu povo a custo da própria vida. Se é verdade que toda posição de relevo se transforma facilmente em posição de poder, é verdade também que por muitíssimo tempo o rei era bem mais do que um tirano, um dominador. O rei era uma “personalidade corporativa”, isto é, reunia e sentia em si todas as aspirações as necessidades e problemáticas do seu povo, para o qual dava sua vida. Era o primeiro em ordem de batalha, o primeiro a procurar soluções à fome e à injustiça do seu povo. Este era o rei. Ainda hoje, nas nossas celebrações eucarísticas temos sinal daquilo que era o rei para o seu povo e que nos recorda muito bem os sentimentos do malfeitor. No ato penitencial a fórmula ainda mantida é “Kyrie Eleison” (que traduzimos com “senhor tende piedade”) na verdade recorda o ato do rei que passava triunfante e, a pessoa sobre a qual pousava o olhar durante o cortejo de triunfo, era beneficiada com doações de pão ou, se fosse um escravo, seria libertado. Eis então a motivação do “grito”: “olha para mim! preciso de ti, preciso da liberdade que você concede”. É isto que o malfeitor havia entendido. É isso que precisamos entender para compreender a diferença entre uma realeza procurada e garantida pelo poder e uma realeza simplesmente reconhecida. Esta é uma realeza de amor, de alguém que se dá porque sabe que esta, a dimensão do amor é a verdade que o homem sempre compreenderá porque ele é feito de amor, mesmo que situações contingentes o conduzam a errar. Jesus tentou até o último com Pilatos e este entendeu:
O que escrevi está escrito... respondeu aos judeus que não queriam uma declaração pública da realeza de Jesus (Jo. 19,22). Pilatos entendeu, mas não teve a força de deixar-se conduzir para a liberdade. Assim, à pergunta de Pilatos:
Tu és o rei dos judeus? Jesus respondeu: “sim, sou justamente eu amarrado assim, entregue por amor a você para que você saiba até onde chega o amor que liberta e devolve ao homem o sentido da sua existência”.
Um último detalhe creio que nos possa ajudar a entender o momento tão significativo desta declaração de Jesus.
Na história de Israel a instituição monárquica sempre foi algo forçado, nunca, por exemplo, as tribos do Norte aceitaram ter um rei; Saul e Davi de alguma maneira impuseram esta instituição por questões sócio-políticas. Mas encontramos palavras como estas pronunciadas pelo profeta Samuel em nome de Deus:
Este povo não rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele. (1Sam. 8,7). O Israel autêntico reconhecia que fora Deus e não um homem que havia tomado as dores do seu povo no Egito; sabia que não fora a força nem a organização de uma instituição que lhe havia dado a liberdade, mas sim a gratuita ação amorosa de Deus, como está no livro de Êxodo:
ouvi o grito do meu povo (Ex.3,9). E ainda, Isaías (deutero) associa o reinar de Deus com o retorno depois da segunda escravidão padecida na terra de Babilônia, assim fica claro para todo homem de fé autêntica: o rei é quem é capaz de libertar, não de oprimir. O reino de Jesus
não vem deste mundo, isto é, não tem suas origens nem motivação que possam ser reconduzidas a interesses, como acontece com as coisas do mundo (já vimos o que se entende por “reis do mundo”), mas encontra a sua origem do “céu”, isto é, na dimensão que é própria de Deus: amor desmotivado, livre, doação sem perguntas a quem diz:
lembra-te de mim... .
“Venha a nós o teu reino”, “triunfe o amor em nós”, pedimos quotidianamente para que esta lei reja e conduza o nosso mundo que ainda acredita tanto no poder que deixa lágrimas e injustiças.
Com os votos de uma feliz celebração do nosso Rei.
Pe. Carlo